Brasileiros são vítimas do medo (dos outros)

Um estudante paulista de 21 anos foi morto por policiais na madrugada de sábado em Sydney, na Austrália. Segundo informações da imprensa australiana, a polícia abordou o jovem por suspeitar que ele roubara um pacote de bolachas em uma loja de conveniência. Como o jovem não teria parado, seis agentes usaram armas que dão choque e acabaram matando-o. Os amigos do rapaz, no entanto, dizem ele foi confundido com o ladrão e que o caso se parece com o de Jean Charles.


O brasileiro estava voltando para casa depois de passar a noite e parte da madrugada com colegas, quando foi abordado pelos policiais no centro de Sydney. De acordo com o produtor de eventos Daniel Silva, de 31 anos, amigo do estudante que também vive em Sydney, todas as lojas de conveniência têm câmaras de segurança, o que poderia provar que o brasileiro não roubou o biscoito. Ele questiona os motivos pelos quais a polícia australiana ainda não divulgou as imagens nem o nome do amigo morto, que estava há seis meses em Sydney estudando inglês.


A irmã da vítima, que é casada com um australiano e mora no país, só soube do acidente após procurar a polícia para registrar o desaparecimento do jovem. A polícia também não esclareceu como o rapaz morreu com as armas de choque, usadas apenas para mobilizar suspeitos.


O jornal australiano “The Sydney Morning Herald” publicou em sua página na internet o depoimento de uma testemunha que diz que o jovem estava sem camisa, de mãos vazias e gritava “me ajuda”, quando foi atingido pelo choque. Ainda segundo o jornal, o brasileiro caiu no chão e os policiais pularam no seu corpo em convulsão. A arma de choque foi usada mais três vezes. O jovem gritava e se debatia, de acordo com o relato.

- Esse é o ponto em que a gritaria parou. Eu pensei que ele tinha desmaiado – disse a testemunha ao jornal.


Ainda de acordo com Daniel, o amigo tinha boa condição financeira e não precisaria roubar um pacote de biscoito. Ele diz também que, pelo tipo físico, ele não conseguiria oferecer qualquer resistência aos policiais.

- Provavelmente, ele devia estar desesperado vendo os policiais correndo atrás dele – disse Daniel, sobre o motivo pelo qual o amigo não teria parado diante do pedido dos agentes.


Em outra reportagem, o “The Sydney Morning Herald” diz que a polícia já tinha avisado à família do jovem no Brasil sobre a morte, mas que a identificação formal ainda não tinha ocorrido. As autoridades disseram que uma autópsia e exames toxicológicos serão realizados para revelar se drogas ou álcool desempenharam algum papel na conduta do jovem.


Comissário assistente da polícia de Sydney, Mark Walton disse entrevista coletiva que os agentes não podiam ter certeza se o brasileiro estava ou não envolvido no roubo.

- Não está claro quanto ao envolvimento do homem - disse.


Walton afirmou ainda que não poderia dizer se o jovem estava armado ou sob efeitos de drogas ou álcool.

- Nós não sabemos o que causou a morte deste homem. Isso será uma questão para o inquérito e médico legista – completou.


A vítima, que também tem cidadania italiana, morava com amigos, perto da casa da irmã. Agora, os amigos organizam uma passeata na quarta-feira para protestar contra a morte do brasileiro.

- Ele estava na hora errada, no lugar errado, igual ao menino de Londres – afirmou o produtor de eventos, referindo-se ao brasileiro Jean Charles de Menezes, o brasileiro morto por engano, em 2005, numa operação antiterror em Londres.



Fonte: O Globo

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