Acabou?

Acabou o que?

Quinta-feira: "Voltar pra que?", na Cinelândia às 20h.

Sábado: "Mulheres de Chico", na Praça Antero de Quental, no Leblon, de manhã e "Bafafá", no Posto 9 às 17h.

Domingo: "Monobloco", no Posto 6 às 10h (cheio demais) e "Barangal", no Posto 9 às 16h.


Seu Jorge e o Bloco da Madeira

Como eu ia dizendo no post anterior blocos espasmáticos surgem quando há muita gente junta e pelo menos 1 instrumento. E foi o que aconteceu logo depois da história anterior. Conversando com o Saci chegamos à conclusão que o negócio era descobrir onde haveria algum instrumento e montar o bloco ali mesmo. Ouvimos de longe 1 tantã e não perdemos tempo. Seguimos o som até chegar a um sujeito que parecia uma versão mais mendiga e mais velha do Seu Jorge. Ele ia tocando seu tantã de ferro e um outro cara que parecia o empresário dele ia puxando os sambas e pagodes.

Nos juntamos ao grupo e pouco depois outras pessoas se uniram. Processo típico do Rio de Janeiro; onde tem muita gente outras pessoas se juntam porque deve ser algo interessante, aumentando o número de integrantes do grupo em escala geométrica. Com o grupo cada vez maior alguém gritou "Órge, órge, órge. Bloco do Seu Jorge!" e todos acompanharam. Uma loirinha se empolgou e foi pro meio da roda sambar o grito de guerra do bloco recém criado. Logo o grito mudou para"Órge, órge, órge. Burguesinha do Seu Jorge!". Ela se achou o máximo e seguiu com o grupo.

A esta hora começamos a caminhar. O empresário alimentava Seu Jorge com goles de cerveja 3 vezes por minuto e controlava as músicas que poderiam e as que não poderiam ser cantadas pelo grupo. Isso até o grupo ficar grande o suficiente para destituí-lo do cargo. Vê se pode... É carnaval! Ninguém pode controlar. Com o grupo grande Seu Jorge passa o instrumento para alguém e vai em direção à areia. "Ar, ar, ar. O Seu Jorge foi mijar!" Seu Jorge voltou, retomou seu instrumento e o carnaval continuou.

O bloco foi andando do posto 9 ao posto 8. Incrivelmente era um bloco essencialmente masculino. Público que cresceu consideravelmente ao passar pela Farme. As únicas mulheres do bloco eram a burguesinha, uma amiga dela e uma baiana gordinha que estava empolgadíssima. Cantamos 3 sambas antigos, 2 músicas do Raça Negra e 2 funks antigos, além, é claro do clássico das marchinhas Aurora. Música essencial em um bloco que se preze.

Pouco antes de chegar ao posto 8 Seu Jorge parou de tocar e na primeira fala da noite, pediu silêncio e atenção. Todos respeitaram, afinal ele era o coração e a alma do bloco. Ele então começou a cantar uma música aparentemente de sua autoria:
"A minha mulher
Ela é discaradinha
Quando ela bebe
Ela perde a linha..."

A partir daqui tinha mais uns versos difíceis de entender, mas que davam a entender que a mulher ficava fora de casa a noite toda na esbórnia e voltava pra casa querendo dormir. E o corno em questão colocava aí em prática sua vingança:
"Eu vou te madeirar
Eu vou te madeirar
Eu vou te madeirar
Até o dia clarear!"

O refrão pegou logo na primeira vez. O povo cantou o tempo inteiro e obviamente a música vinha acompanhada de uma coreografia que não pretendo descrever. Em 1 minuto eram mais de 50 pessoas cantando o refrão e fazendo a coreografia na Vieira Souto, inclusive eu e o Saci numa perna só.

A música acabou. A criatividade também. Voltamos então do posto 8 para o 9 cantando todas as músicas que já tínhamos cantado de novo, mas dessa vez substituindo os refrões por:
"Eu vou te madeirar
Eu vou te madeirar
Eu vou te madeirar
Até o dia clarear!"

E a coreografia sendo feita por todo mundo - cariocas, baianos, alemães, japoneses... - por quem o Bloco da Madeira passava. No final havia muita gente e além do tantã inicial havia 1 tamborim e uma lixeira da Comlurb servindo de instrumentos. Seu Jorge ficou todo satisfeito com sua música na boca do povo.

No alto daquele morro tem um coqueiro

Zé Pereira que é Zé Pereira não dorme. Depois de todos os blocos de ontem a noite terminou na praia de Ipanema, que estava lotada depois da passagem do "Simpatia é Quase Amor" e do "Que Merda é Essa?" e na esperança dos desavisados de rolar o "Empolga às 9". Com tanta gente junta no carnaval carioca não poderia ser diferente; aconteceram vários blocos espasmáticos. 

Eu e meu amigo Saci Pererê vimos uma cena tradicional carnavalesca. Dois sujeitos levando um fora de duas mocinhas. Normal, não tivesse acontecido tão na nossa frente a ponto dos indivíduos se sentirem na intimidade de puxar papo conosco depois do fora. "Com essas aí não rolou, mas não dá pra ganhar todas. Já peguei 8.", disse um deles se gabando. "Viemos lá de Minas e o carnaval aqui do Rio é uma maravilha."

O Saci que não é bobo já foi puxando a sardinha pra ele quando disseram vir de Minas Gerais. Falou da Associação dos Criadores de Saci, que fica em Itajubá, no sul de Minas, e da Sociedade dos Observadores de Saci. Só pra se gabar também. Mineiro que é mineiro também não fica pra trás e nossos novos amigos interioranos contaram o segredo de suas conquistas. Uma cantada infalível que vou lhes contar em primeira mão. Eles abordam as menininhas "prendadas" com a inesquecível questão: "No alto daquele morro tem um coqueiro. Um coco caiu do coqueiro. Rola ou não rola?"

Saci e eu ficamos estupefatos. Conhecemos muitas histórias. O Curupira então bota fogo nas nossas cabeças de tanta história, mas essa do coqueiro foi inédita. Mais 2 minutinhos de papo e lá seguiram os dois e seus coqueiros para abordar outras moçoilas. Como vieram foram. No estilo de amizade de carnaval. E nem sei seus nomes para dar crédito a tal cantada.

Salve Momo!

Carnaval - Modo de usar

Passando em frente a um mercado da Cidade Maravilhosa vi um grupo de jovens que parecia ser de Minas. Três deles saíram do mercado com latinhas de cerveja geladas, prontas para o consumo. Uma delas, no entanto (a mais emperequetada), resmungou por baixo de suas douradas madeixas "Gente, mas não temos copos..."

Em homenagem a essa patricinha vão aqui algumas dicas de como se portar no carnaval carioca:

1) Cerveja se bebe na lata
Copo de prástico é pra Cidra Cereser do ano novo, benhê. Não acredite na história que vão te contar que o pai da Daniella Sarahyba morreu depois de tomar uma cerveja na lata suja. Pura lenda urbana. Não sei que parte dessa história é verdadeira, mas olha pra ela. Olha a saúde. Pronto. Curte a saúde da Sarahyba e saúde! Na lata mesmo. Essa que passa de boca em boca. Só pra aumentar o sabor. E ainda vem com vitamina S (de sujeira). No final do carnaval te passo uma dica de um creminho ótimo para herpes.

2) A temperatura é essa mesmo
A cidade é quente e as pessoas mais ainda. Se a cerveja está quente... fazer o quê, né? Tá no bloco é pra se divertir. Se for homem vista um kilt e finja que é escocês. Se for mulher bote uma peruca loira e se faça de alemã. Lá eles bebem nessa temperatura mesmo. O importante é a primeira estar gelada. Portanto não deixe faltar em casa. Também pode ser uma boa levar um isoporzinho de lata junto contigo. Se quebrar por causa de algum esbarrão no bloco jogue fora porque, pelamordedeus, é 1 Real um trocinho desse. E se quem esbarrou for do sexo oposto ainda dá pra puxar assunto.

3) Liberte suas fantasias
Carnaval não é festa a fantasia. O que quero dizer com isso? Numa festa a fantasia você prepara sua fantasia com 1 mês de antecedência, toda bonitinha, tudo faz sentido. No carnaval a asa de anjo combina com o óculos da sua avó e o chapéu estranho que aquele amigo gringo esqueceu na sua casa. Nada precisa fazer muito sentido. Se você arrumar uma peruca loira e uma amiga estiver de cabelos pretos e alguém perguntar "Que fantasia é essa?" responda "Estamos de Flora e Donatela" e comece a cantar "Beijinho Doce". Sucesso garantido.

4) Lugar de carro é na garagem
Garagem mesmo, porque se estiver parado na rua vai amanhecer mijado caso amanheça no mesmo local. Vai transitar pela cidade? Metrô é a melhor opção. Se não tiver metrô pra onde você vai tente o ônibus, mas prepare-se para os engarrafamentos. Não somos paulistas, mas no carnaval é como se a gente se fantasiasse deles nesse quesito. E prepare-se para gastar muita sola de sapato. 

5) Roupa é importante em alguns momentos
Saia de casa confortável. Você vai andar muito. Se você está se sentindo bem com o salto 18, a peruca verde e o acessório que pisca é isso que importa. Nessa época do ano ainda é capaz de chover do nada. Caso isso aconteça divirta-se, porque inevitavelmente você vai ficar verde, o salto vai ficar pelo caminho e o acessório vai se dividir em 18. Dependendo do estado alcólico ainda é você que vai ficar piscando. É isso mesmo.

Outras dicas e sugestões ao longo da folia do meu Rei. E viva Momo!

Uh, vamo invadi!

Sim! Eu sou o Zé Pereira. Invadi esse espaço e só saio quando meu Rei, Momo, entregar de volta a chave da Cidade do Rio de Janeiro ao prefeito.

Tô na rua, você vai me ver.

E não me venha com papo de Sapucaí. Odeio carnaval de gringo.

Sábado 14 dá sorte

No dia seguinte à criação da minha empresa fui fazer o primeiro trabalho. O bloco "Imaginô? Agora Amassa", no Leblon. A produtora foi contratada para filmar a passagem do bloco e fazer um DVD disso. Tranquilo. Chamei a cinegrafista com quem mais tenho trabalhado ultimamente e minha namorada (e agora sócia) foi fotografando por conta própria.

Chegando lá a primeira impressão era do fracasso. Só estavam lá a bateria, os organizadores e bastante chuva. Mas de acordo com a fotógrafa e a cinegrafista que me acompanhavam o "dia 14 de fevereiro seria uma data marcada pelas boas possibilidades de abertura para os negócios". Eu sou o mais cético da sociedade, mas não posso negar que rapidinho o tempo abriu. Depois a bateria resolveu abrir os trabalhos e as pessoas começaram a chegar.


Esse bloco foi formado primordialmente por estudantes de Direito da UERJ e ainda conta com 3 patrocinadores. Ou seja; não tem nada parecido com problemas financeiros. A bateria estava arrumadinha pelo mestre de bateria contratado, o que é bom para o resultado do vídeo. Pouco depois chegaram alguns malabaristas também contratados para ficar na frente da bateria, o que certamente resultaria em boas fotos. A gente também tinha livre acesso ao alto do carro de som, o que seria bom para as fotos e o vídeo.


Quando tudo já estava ficando mais animado um dos organizadores me chamou: "Pachá, a gente contratou um helicóptero para jogar pétalas de rosas em cima do bloco quando ele virar na praia e eu queria que você fosse lá em cima filmando." Qual seria a sua reação? Eu ri. Esse cara tem 2 metros de altura, estava todo vestido e pintado de palhaço, bebendo desde cedo e atende pela alcunha de Serjão. E ele continuou "A gente contratou por uma hora, mas deve levar uns 20 minutos. Depois dá um passeio lá."


Era sério. E ainda poderiam ir 2 pessoas da nossa equipe. Você acha que eu ia perder meu primeiro passeio de helicóptero? Pois é, perdi. Aliás, perdi não. Enviei a Taís para filmar tudo e a Érica para fotografar tudo lá de cima. Ao mesmo tempo liguei para uma amiga que tem uma boa câmera e mora perto. Aluguei a câmera dessa amiga e filmei de baixo o que deu antes da bateria dessa câmera acabar.


Conclusão: o bloco rendeu imagens lindas e as meninas que foram no helicóptero também registraram tudo. Primeiro dia da produtora e já temos imagens panorâmicas do Rio de Janeiro, que podem valer muito. Sou bastante cético, mas confesso que esse sábado 14 deu sorte.

Faltava alguma coisa (ou mini-empresa, mini-pizza e mini-gente)

Sexta-feira foi um dia feliz. Minha namorada e eu abrimos uma produtora. Eu fico responsável pela área de vídeo e ela pela de fotografia. Cada um em sua área profissional e, no entanto, ambos trabalhando em parceria. Tudo perfeito, mas faltava ainda uma coisa; o nome da empresa.

Pensamos muito. Estamos pensando ainda, no maior brainstorm da minha vida, mas parece que todas as palavras do mundo já estão registradas por alguém com um ".com" ou ".com.br". E não queremos confundir nossos clientes. Já estávamos pensando em inventar palavras quando ligou o primeiro cliente. Um bloco de carnaval que sairia no dia seguinte estava precisando de alguém para filmar sua passagem. Liguei para a nossa cinegrafista, acertei o preço com o presidente do bloco, tudo certo. Primeiro dia já com cliente! Perfeito! Mas faltava uma coisa; champagne para tomar na limosine enquanto iamos para a casa dela.

Na falta de champagne e de limosine compramos umas mini-pizzas para viagem e entramos no 415 rumo à Tijuca mesmo. Ônibus lotado no fim de tarde de uma sexta-feira 13 chuvosa. Mas tínhamos as mini-pizzas. Falei para ela abrir o pacote ali mesmo para matarmos aquela que nos estava matando; a fome. Primeiro ela ficou tímida. Depois abriu o pacote, mas me deu um tapinha na mão quando eu fui colocar a pizza inteira para fora da embalagem. "Não! A gente pega os pedacinhos aqui dentro mesmo pra ninguém ver. Falta de educação deixar as pessoas com vontade." Tá certo... 1 minuto depois duas das nossas pizzas estavam completamente fora do pacote e nós éramos quase 2 ogros devorando as pizzas. Maravilha! Mas faltava alguma coisa: ar. 

Estava lotado demais o ônibus. Atrás de mim havia um rapaz com a mochila nas costas incomodando a todos que passavam e, especialmente a mim, que estava tomando vários esbarrões. Regra número 1 da etiqueta para os passageiros de ônibus: coloque a mochila na frente do corpo. Pedi então educadamente se ele poderia fazê-lo. Eis que ele me responde com um sonoro "Não." Eu sou tranquilo, mas ali faltava certamente uma coisa: educação.

Seguindo viagem minha irmã querida me liga e diz que no dia anterior pegou um ônibus que daria 3 meses de postagens nesse blog. Parece que o motorista que ela pegou falava extremamente alto e não dispensava uma conversa. Era daqueles ônibus sem trocador., onde o motorista acumula função. (Um absurdo ser permitido, por sinal. É o tipo de veículo que mais tem causado acidentes pela cidade) Esse motorista-cobrador falava alto, como eu dizia, e parecia muito inteligente, mas se considerava ainda mais. Pelo visto muito mais. Ele falava da "energia solar", "energia das pessoas", entre outros assuntos esotericamente mais aprofundados no chacoalhar do busão. Ótimo para um post mesmo, mas ainda faltava uma coisa; um desfecho para o post.

Já havia desligado o telefone e estava também um pouco desligado. Não esperava mais nada quando vi uma das cenas mais lispectorianas da minha vida. O ônibus parou no início do Elevado Paulo de Frontin e, do nosso lado, vindo sabe-se lá de onde, passou caminhando tranquilamente em seu terno de linho, assoviando com as mãos nos bolsos, um anão calvo. Pronto. Estava feito o post.

O frango e as armadilhas do trabalho em casa

Depois de um dia trabalhoso como foi o de ontem para mim e uma noite não muito bem dormida levantei-me hoje sabendo que precisaria trabalhar. Mas trabalhar em casa esconde diversas armadilhas. A pior delas é a preguiça. Recostei no sofá e liguei na Globonews. Como jornalista eu também sei que fazer reportagens 24 horas sem ser repetitivo demais também esconde suas armadilhas.

Estava passando uma reportagem falando sobre o trabalho do sujeito que faz o tradicional frango de padaria. Mostrava que o indivíduo acordava cedo, preenchia com farofa caseira o interior do galináceo e ficava todo satisfeito pelo fato de ter mais procura do que demanda.

Foi covardia demais para um homem que mora sozinho. Eu já estava com o risoto preparadinho na geladeira e não havia percebido que a galinha e o risoto foram feitos um para o outro. Quem não acredita em almas gêmeas é porque nunca fez essa combinação quentinha com um bom azeite por cima do arroz. 
Não tive escolha. Fui para a rua em busca do frango de padaria. Ipanema é chique demais para o produto, o que me obrigou a uma longa caminhada até Copacabana. Comprei, voltei, comi, relaxei. 

Depois de conferir e-mail pela quinta vez escrevi este post, já pensei em novidades carnavalescas para o blog e preciso trabalhar. Mas sabe como é... trabalhar em casa guarda algumas armadilhas. Vai começar o jogo do Fluminense. Ainda temos chance de ir para a semi-final com o goleiro reserva. Só não pode frangar. Prometo voltar ao trabalho daqui a pouco. Depois do jogo e do bloco que vai rolar aqui perto.

E como diria o Brahma

Nem essa chuvinha persistente nos atrapalhará.

 YES, WEEKEND !!!

Clementina de Jesus

Hoje quero aproveitar a sua sensibilidade para falar de alguém que mudou minha forma de ver Cultura. Essa pessoa não precisou fazer muito esforço para me transformar e nem nunca vai saber o efeito que causou em mim.


Clementina de Jesus nasceu no interior do estado do Rio de Janeiro, na zona rural de Valença. Mudou-se para a capital para o pai tentar crescer na vida. Trabalhou desde menina como empregada doméstica. Seus pais foram escravos beneficiados pela Lei Áurea.


É uma brasileira. Lutou uma vida inteira contra a pobreza. Lutou e nunca abandonou sua Cultura. Não pra forçar uma barra como fazem os intelectuais, mas justamente pelo contrário; ela não abandonou a Cultura porque era isso o que ela respirava. E pra mim não há melhor conceito de Cultura do que aquilo que se vive, o que se respira. 


Todo ano freqüentava a igreja de Nossa Senhora da Glória, onde entoava seus cantos. Numa dessas festas para Nossa Senhora foi avistada por um jornalista e produtor musical, o Hermínio Bello de Carvalho, que ficou impressionado com o que viu e ouviu e apostou na produção dela.




Clementina gravou o primeiro disco aos 62 anos de idade. Nem por isso deixou de ser empregada. E sendo empregada não conseguiu juntar a contribuição necessária ao Estado para se aposentar. Sua alforria foi comprada por Hermínio e outros amigos artistas, que juntaram o valor que faltava para que ela se aposentasse.


Ela se dizia católica. E quem não diria num país onde quem não é sofre preconceito? Acho que pra ela já bastava ser mulher, negra, favelada e velha. Mas ela mesmo acreditava em seu catolicismo. E seus pais, ex-escravos, provavelmente acreditavam no deles também. Esse é o catolicismo brasileiro; cheio de influências e agregações. Sem por isso deixar de ser verdadeiro.


E isso tudo é revelado no canto da "Rainha Quelé". Vários pontos de Umbanda são cantados por ela. Seu samba é muito mais regional do que o que era cantado já na época. Até as roupas têm a influência africana. Tudo sem propósitos intelectuais. Era ela. Original. Não era a toa que muitos a chamavam instintivamente de "mãe".

Diogo Mainardi escreve constantemente em suas crônicas para a revista Veja que o Brasil é um país que não tem Cultura. Que no máximo o que se faz aqui é um som tribal, selvagem ou sei-lá-o-quê-mais. Fico triste quando leio esse tipo de opinião. E essa é só mais uma demonstração do extermínio cultural feito nesse país há mais de 500 anos.

 

Mainardi ganha espaço na mídia para dizer o que alguns querem ouvir para não se sentirem tão sozinhos nesse país de "pobres miseráveis". Para essa classe o Brasil é uma merda e cada um que fuja para onde puder (mas não sem antes explorar isso aqui ao máximo). Queria poder ignorar essa gente, mas não posso. Tive educação e aprendi a não ignorar quem agride meu semelhante. 

Fico pensando em quantas Clementinas nós talvez tenhamos perdido por causa do aparteid cultural em que vivemos. A falta de oportunidades mata. Falta de oportunidade de emprego mata de vergonha o chefe de família - e isso foi o que eu mais vi ao distribuir sopão conversando com moradores de rua. Falta de estudo mata a possibilidade de crescimento das pessoas e do país. Falta de oportunidade de difusão cultural mata a Cultura.


Talvez na Islândia sejamos mais felizes. E daí? Quero ser feliz aqui, independente do nome que tenha o aqui. E se for pra sair daqui, que seja sem nunca negar minha origem. Gosto muito da Björk. Ouvir demais cansa, mas gosto da atitude dela. Altamente libertária, mas sempre cantando as lendas saxãs, por exemplo. E viva a Islândia.


Mas viva o Brasil também! Viva Clementina de Jesus, Cartola e Nelson Cavaquinho! Viva Hermínio Bello de Carvalho! Mas enquanto não valorizarmos o que temos permaneceremos tendo muitos passarinhos para serem soltos ainda até que os pesadelos cessem...


Encontrei um vídeo maravilhoso de Clementina com Tetê Espíndola (e narrado pelo Hermínio). Incrível o contraste lindo das duas. Duas vozes extraordinárias e completamente diferentes. Uma canta e depois a outra canta. Enquanto uma canta a outra está sempre lindamente perdida:  



Querido leitor, me desculpe pela "videorragia", mas minha paixão por Clementina de Jesus é inexplicável em palavras. E hoje seria o aniversário de 108 anos da Rainha Quelé.



Mallu Magalhãeze é Choque!

Eu confesso. Sou viciado em Cultura. E como viciado vou postar aqui um vídeo que achei na internet com o pai da Mallu Magalhães, o MC Magalhãeze. 
Para quem não se lembra, no segundo mandato de Cesar Maia ele resolveu dar um "choque de ordem" na cidade. (Te lembra alguém?)
O choque de ordem de Cesar resumiu-se em criar a Guarda Municipal, que tinha como função primordial bater em camelôs e afanar suas mercadorias (Te lembra alguém?).
Uma das vítimas da política de Cesar foi um vendedor de balas e chocolates do Centro do Rio (Magalhães) que teve seu material de trabalho "apreendido" pelos guardas que, afinal de contas, são Otoridade também e precisam dar a Cesar o que é de Cesar. 
Em homenagem ao Choque de Ordem (nada mais atual) portanto, segue aqui um clipe feito por mais um anônimo da internet para o pai da Mallu Magalhães.