Um camaleão, um cunhado e uma vitrola

Assista antes e leia depois:



O vídeo acima partiu de uma idéia muito simples. Fato evidente. Sempre acreditei no poder da simplicidade, mas quando se tem uma idéia simples não se sabe o tamanho da repercussão que essa idéia irá causar.

A idéia era basicamente montar uma história aproveitando meu visual altamente camaleônico. Chamei a Érica e ela topou a parada. Uma mulher acorda certo dia se sentindo muito estranha. Ao se olhar no espelho nem chega a se reconhecer. Vai lavando o rosto e se transformando. O surrealismo chega ao ápice quando ela se acostuma com a nova situação e brinca com o próprio visual até voltar ao normal e, aliviada, seguir sua vida.

Idéia pronta. Vamos filmar. Tudo feito em uma tarde. No meio das minhas transformações, justamente quando eu estava com o bigode de Hitler e o cabelo de milico toca a campainha. Não havia escapatória. Tive de atender o senhor que trazia do conserto minha vitrola (Sim, eu sou um desses chatos que "confia" mais no som da vitrola do que no MP3). O senhor em questão é o dono da autorizada. Um português que chegou ao Brasil na década de 70 com a jovem esposa com quem está junto até hoje. Agora já sei que o nome dele é Amâncio, mas diversas vezes me confundi e o chamei de Cornélio. Ah, dá pra fazer a relação, né? Bom, tive que atender o seu Amâncio com aquele visual completamente longe da minha realidade. A vitrola ainda não estava funcionando perfeitamente e tive que mandá-la de volta. Diante do meu new look seu Amâncio nem quis discutir. Enquanto isso Érica se escangalhava de rir no quarto.

Sai o seu Cornélio e conseguimos filmar esse visual. Toca a campainha de novo. Como já tínhamos filmado corri para pelo menos tirar o bigode enquanto Érica atendia a porta. Era meu pai. Se soubesse que era ele eu não teria me apressado tanto por 2 motivos; o primeiro é que ele fala "pelos cutuvelos", como diria o seu Cornélio, o que faz com que a pressa para qualquer coisa na presença dele seja algo supérfluo. O segundo motivo é que meu pai não se surpreenderia com meu visual germânico já que ele me viu com todos os visuais possíveis. Inclusive na época em que entrei para a faculdade e usava brinco, cavanhaque comprido e costeletas... Bom, depois da não tão breve visita voltamos à filmagem. Mais uma semana e a edição estava pronta para o Festival do Minuto.

No entanto como a leseira é parte da minha genética deixei o filme guardado e não mandei para o festival. Fiquei mais preocupado com alguns trabalhos e o outro festival do post anterior. Como podem perceber nem pedi voto para esse filme. Nem sabia até quando seria a votação. Só inscrevi o filme no Festival do Minuto no último dia aberto para inscrições. Na última hora, pra ser mais exato.

Na casa da minha irmã comentei dos festivais que estava participando e mostrei os filmes para ela, a Lola (que seria até injusto dizer que é sogra dela pois representa muito mais. É uma verdadeira amiga dessas que a gente sabe que torce pela gente), meu pai, meu cunhado e o João Gabriel, meu sobrinho de 4 anos. Todos pareceram ter gostado muito. Todos, é claro, menos meu cunhado. Como bom cunhado ele disse "viadinho" e foi jogar videogame. Meu sobrinho, no entanto, foi a surpresa mais grata. Depois do comentário do pai ele se virou e disse "Não é o tio Zé. É a tia Érica fantasiada de tio Zé." A percepção dele me fez ver que o filme era bem compreensível.

Umas 2 semanas depois recebo um e-mail falando da nossa premiação. Ganhamos o Festival. Me pediram ainda uma cópia do filme para tentarem vender para emissoras de TV e uma versão de 35 segundos para passar por celulares. Além disso descobri que eles colocaram o vídeo no Youtube e o próprio Youtube o colocou como um de seus vídeos em destaque. Resultado; mais de 16 mil acessos em uma semana e muitos comentários. Como era de se esperar muitos comentários elogiando e outros típicos comentários de cunhados como o de um cara que disse que o personagem do filme era o Richarlyson - jogador homossexual do São Paulo - e outro que disse que seria melhor o Ronaldo não assistir... Mas foi muito legal ver um trabalho meu e da Érica tendo toda essa repercussão. Está muito engraçada a lista de comentários no Youtube. Para vê-los clique aqui.